{"id":9026,"date":"2025-03-14T12:08:27","date_gmt":"2025-03-14T15:08:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/bloghlg\/entrevista-carola-saavedra\/"},"modified":"2026-02-26T17:09:15","modified_gmt":"2026-02-26T20:09:15","slug":"entrevista-carola-saavedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.taglivros.com.br\/blog\/entrevista-carola-saavedra\/","title":{"rendered":"Entrevista: Carola Saavedra"},"content":{"rendered":"<p>A escritora <strong>Carola Saavedra<\/strong> j\u00e1 \u00e9 conhecida dos Taggers de longa data. Seu livro <em><strong>Com armas sonolentas<\/strong><\/em> foi enviado na <strong><a href=\"https:\/\/leia.taglivros.com\/assine-clube-frete\/?utm_medium=social&amp;utm_source=blog&amp;utm_campaign=entrevista_carola_saavedra\">TAG Curadoria<\/a><\/strong> em 2022, indicado por Carlos Eduardo Pereira. A obra logo se tornou um dos t\u00edtulos queridinhos do clube, com nota 4.3 no aplicativo. Neste m\u00eas, ela est\u00e1 de volta indicando um romance visceral que acompanha mulheres atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Carola adotou o <strong>realismo on\u00edrico<\/strong> no conjunto de sua obra. No estilo, as fronteiras entre o real e o sonhado se dissolvem, criando uma atmosfera ao mesmo tempo m\u00edstica e v\u00edvida. Nas palavras de Saavedra: \u201cn\u00e3o importa se as coisas aconteceram no inconsciente ou na \u2018vida real\u2019, para a psique, tudo \u00e9 verdade\u201d. O <strong>deslocamento<\/strong> tamb\u00e9m \u00e9 um tema recorrente nas obras da autora. <strong>Natural de Santiago do Chile, Carola Saavedra se mudou para o Brasil ainda na inf\u00e2ncia<\/strong> e, desde ent\u00e3o, n\u00e3o parou de viajar. Morou na Espanha, na Fran\u00e7a e, atualmente, vive na Alemanha, onde leciona na Universidade de Col\u00f4nia. Leia abaixo a entrevista completa com Carola Saavedra e suas indica\u00e7\u00f5es de leitura.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong><a href=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/10-autores-contemporaneos-que-a-tag-ja-enviou\/\">LEIA TAMB\u00c9M: 10 AUTORES CONTEMPOR\u00c2NEOS QUE A TAG J\u00c1 ENVIOU<\/a><\/strong><\/p>\n<h2 class=\"has-medium-font-size\"><strong>1- Em 2022, enviamos seu livro, <em>Com armas sonolentas<\/em>, aos associados da TAG Curadoria. Assim como o livro que voc\u00ea indicou, \u00e9 uma hist\u00f3ria que transcorre a partir da experi\u00eancia de personagens mulheres de diferentes gera\u00e7\u00f5es, investiga o feminino e navega por dimens\u00f5es do inconsciente. Voc\u00ea v\u00ea pontos de contato entre as duas narrativas?<\/strong><\/h2>\n<p>Sim, acho que o principal ponto de contato \u00e9 esse mergulho nos aspectos mais profundos e misteriosos da psique das personagens, nisso que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio, que n\u00e3o \u00e9 claro, nessa ambiguidade insustent\u00e1vel da palavra. E de como isso vem \u00e0 tona, talvez o que haja em comum seja isso, uma cartografia do que vem \u00e0 tona a partir daquilo que n\u00e3o foi falado nas fam\u00edlias, do que passa de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, seja como escrita-sintoma no corpo, seja como ato-sintoma na vida. H\u00e1 sempre algo que se sabe sobre essa hist\u00f3ria familiar, algo que se escreve, mesmo que tentemos ignorar.<\/p>\n<h2 class=\"has-medium-font-size\"><strong>2- H\u00e1 cada vez mais mulheres escrevendo e sendo reconhecidas no meio liter\u00e1rio. Como voc\u00ea enxerga esse momento da literatura contempor\u00e2nea no Brasil? Em que aspectos ainda precisamos avan\u00e7ar?<\/strong><\/h2>\n<p>Houve uma clara mudan\u00e7a de paradigma na literatura brasileira a partir de 2010, 2015, para ficar s\u00f3 nos n\u00fameros, basta fazer uma an\u00e1lise dos principais pr\u00eamios liter\u00e1rios, se at\u00e9 ent\u00e3o era raro ver mulheres entre os finalistas, mais raro ainda era que fossem premiadas. Tamb\u00e9m houve um aumento no n\u00famero de mulheres publicadas pelas principais editoras do pa\u00eds, outro marcador dessa transforma\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 algo isolado, claro, \u00e9 reflexo das pol\u00edticas identit\u00e1rias, um movimento que vem se dando em muitos lugares, e com muita for\u00e7a na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que se trata de um processo que est\u00e1 apenas come\u00e7ando e que n\u00e3o se d\u00e1 de forma linear nem progressiva. E apesar das grandes mudan\u00e7as, h\u00e1 ainda muita coisa ainda a ser feita, especialmente no que diz respeito ao racismo, ou seja, ainda estamos longe de um feminismo que considere a voz e a escrita das mulheres negras e ind\u00edgenas. Ali\u00e1s, acho que este \u00e9 o principal aspecto para o qual devemos olhar, nos afastarmos de um feminismo liberal de mercado, que tudo engole e transforma em produto, para construirmos uma literatura que realmente d\u00ea espa\u00e7o para outras vozes: mulheres negras, ind\u00edgenas, l\u00e9sbicas, pessoas trans, n\u00e3o bin\u00e1rias, e todas as demais dissid\u00eancias. N\u00e3o digo isso como uma esp\u00e9cie de benevol\u00eancia, ao contr\u00e1rio, a literatura s\u00f3 tem a ganhar, a se enriquecer quando incluir outras diversidades.<\/p>\n<h2 class=\"has-medium-font-size\"><strong>3- Voc\u00ea mora h\u00e1 alguns anos na Alemanha, pesquisando e lecionando literatura e estudos culturais no Instituto Luso-Brasileiro da Universidade de Col\u00f4nia. Como \u00e9 escrever e integrar a cena liter\u00e1ria brasileira estando fisicamente longe do Brasil? Em que medida esse olhar de fora traz desafios e potencialidades para o seu trabalho?\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p>Hoje em dia a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica n\u00e3o \u00e9 mais necessariamente uma dist\u00e2ncia cultural, ali\u00e1s, acho que nunca estive t\u00e3o pr\u00f3xima do Brasil como agora. Al\u00e9m de viagens constantes, algo que meu trabalho n\u00e3o s\u00f3 permite como exige, eu trabalho numa longa pesquisa sobre arte e literatura ind\u00edgena, ent\u00e3o apesar de morar na Alemanha, toda a minha aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada para o Brasil, especialmente para os povos origin\u00e1rios nesse territ\u00f3rio, suas diversas culturas, narrativas e formas de resist\u00eancia. Um aprofundamento que criou em mim uma s\u00e9rie de deslocamentos no meu ponto de vista, talvez uma forma mais intensa de pensar a nossa hist\u00f3ria colonial e todo o movimento decolonial.<\/p>\n<p>Em outras palavras, \u00e0s vezes, surge esse olhar que o distanciamento geogr\u00e1fico intensifica, que \u00e9 um olhar cr\u00edtico para certas realidades. Funciona da mesma maneira quando nos afastamos de \u201ccasa\u201d, percebemos melhor do que n\u00e3o gostamos e do que sentimos falta, tamb\u00e9m nos ajuda a lembrar quem somos. Talvez estes anos na Alemanha tenham servido para me lembrar o quanto eu estou ligada ao desenrolar da hist\u00f3ria colonial brasileira (e, mais amplamente, latino-americana), suas resist\u00eancias, esse lugar ancestral, e do quanto esse espa\u00e7o \u00e9 a minha casa. Resultado disso \u00e9, num aspecto liter\u00e1rio, o meu romance mais recente <em>O manto da noite<\/em>, uma esp\u00e9cie de viagem on\u00edrica pelo passado (ancestral) e futuro (dist\u00f3pico) do continente.<\/p>\n<h2 class=\"has-medium-font-size\">4<strong>&#8211; Um dos temas que atravessa sua escrita \u00e9 a experi\u00eancia de viver em um mundo em destrui\u00e7\u00e3o e as formas de se relacionar com nosso tempo sob diferentes perspectivas e modos de vida. Como podemos cultivar a criatividade nesse cen\u00e1rio de cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, e o que podemos aprender com os povos origin\u00e1rios nesse sentido?<\/strong><\/h2>\n<p>Acho que o principal a se aprender com os povos origin\u00e1rios \u00e9 o respeito por esses povos, permitir coisas b\u00e1sicas como o direito \u00e0 vida, \u00e0 pr\u00f3pria l\u00edngua e cultura. Digo isso porque \u00e9 importante lembrar que o saber dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o pode ser mais um produto a ser consumido, a busca por esses saberes precisa em primeiro lugar estar integrada com pol\u00edticas que permitam a sobreviv\u00eancia desses povos. Porque se eles sobreviverem se manter\u00e1 tamb\u00e9m a floresta, as florestas em geral, e tudo o que vive nelas, e se isso sobreviver, aumentam as nossas chances tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Agora, para al\u00e9m desse aspecto, h\u00e1 sim muito a aprender, o principal \u00e9 a forma como lidamos com a natureza, com o planeta, e especialmente com a alteridade. Se olhamos para o outro como algo ou algu\u00e9m que s\u00f3 existe para nos servir ou se seremos capazes de compreender (e atuar) que toda rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa se com outro ser humano, com animais n\u00e3o humanos, com uma montanha, um rio ou com o pr\u00f3prio planeta deve ser sempre uma rela\u00e7\u00e3o horizontal, de trocas justas, para que todos possam continuar neste mundo.<\/p>\n<h2 class=\"has-medium-font-size\"><strong>A ESTANTE DA CURADORA<\/strong><\/h2>\n<h3 class=\"has-medium-font-size\"><strong>Livro que estou lendo:&nbsp;<\/strong><\/h3>\n<p>Costumo ler v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo: <em><strong>As aventuras da China Iron<\/strong><\/em>, de Gabriela Cabez\u00f3n C\u00e1mara. Na verdade \u00e9 uma releitura, mas como \u00e9 um dos livros que me marcou muito nos \u00faltimos tempos, sempre volto a ele. H\u00e1 muito a dizer sobre o livro, mas aponto o aspecto que mais me interessa que \u00e9 uma hist\u00f3ria que narra outras formas de amor, de amar, para al\u00e9m dos moldes hetero-patriarcais.\u00a0<\/p>\n<p>Estou lendo tamb\u00e9m e gostando muito de <em><strong>Chamanes el\u00e9ctricos en la fiesta del sol<\/strong><\/em>, de M\u00f3nica Ojeda (que eu saiba, ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas), \u00e9 um livro tamb\u00e9m com muitos aspectos a comentar, mas destaco a constru\u00e7\u00e3o de outras realidades, realidades on\u00edricas que se desdobram em outras formas de habitar o mundo.\u00a0<\/p>\n<h3 class=\"has-medium-font-size\"><strong>Livro que mudou minha vida:<\/strong><\/h3>\n<p>Muitos livros mudaram a minha vida, mas para citar apenas um, escolho <em><strong>A bolsa amarela<\/strong><\/em>, da Lygia Bojunga. Outro dia fui ler esse livro para a minha filha e fiquei completamente espantada com a qualidade liter\u00e1ria, \u00e9 uma obra prima, mas n\u00e3o s\u00f3 isso, compreendi o quanto esse livro marcou a minha escrita e a minha vis\u00e3o de mundo. E fiquei surpresa com as semelhan\u00e7as, a protagonista era uma menina que tinha tr\u00eas desejos na vida, ser adulta logo para poder sair de casa, ser um menino para poder usufruir da liberdade que s\u00f3 os\u00a0 meninos tinham, e ser escritora. \u00c9 um livro que fala de depress\u00e3o, melancolia, rela\u00e7\u00f5es abusivas, e tamb\u00e9m aborda de forma indireta quest\u00f5es como desigualdade social, repress\u00e3o, ditadura, etc. \u00c9 preciso muito talento para criar um livro assim, escrever para crian\u00e7as \u00e9 dific\u00edlimo.<\/p>\n<h3 class=\"has-medium-font-size\"><strong>Livro que eu gostaria de ter escrito<\/strong>:&nbsp;<\/h3>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum livro que, por mais que eu admire, gostaria de ter escrito. \u00c9 que para escrev\u00ea-lo eu teria que ter sido essa pessoa, passado pelo que ela passou, ter lido o que ela leu, e eu estou bem com quem sou. Nesse sentido, poderia dizer que os livros que eu queria ter escrito s\u00e3o aqueles que escrevi. N\u00e3o porque eles sejam melhores ou piores do que outros, mas porque eles s\u00e3o o resultado da vida que tenho vivido, e com todos os problemas que ela tenha, (quem n\u00e3o os tem?) \u00e9 uma vida interessante, e o que mais a gente poderia querer do que ter uma vida interessante?<\/p>\n<h3 class=\"has-medium-font-size\"><strong>\u00daltimo livro que me fez chorar<\/strong>:&nbsp;<\/h3>\n<p>Foi <em><strong>Instru\u00e7\u00f5es para morder a palavra p\u00e1ssaro<\/strong><\/em>, livro de poemas de Assionara Souza. A Nara foi uma escritora e poeta de Caic\u00f3, Rio Grande do Norte, mas radicada em Curitiba, uma grande escritora, ali\u00e1s recomendo muito tamb\u00e9m o seu livro de contos <em><strong>Cecilia n\u00e3o \u00e9 um cachimbo<\/strong><\/em>. Mas o que me fez chorar foi entrar numa livraria ano passado e me deparar com o livro de poemas, n\u00e3o esperava. Trocamos mensagens por muitos anos, ela faleceu em 2018. Combinamos muitas vezes de nos encontrar, quando eu fosse a Curitiba, nunca nos conhecemos pessoalmente, e eu fico pensando em como teria sido. Mas nas palavras o encontro nunca deixou de acontecer.<\/p>\n<h3 class=\"has-medium-font-size\"><strong>\u00daltimo livro que me fez rir:<\/strong>&nbsp;<\/h3>\n<p>Interessante, pensei muito, mas n\u00e3o consigo me lembrar de um livro que tenha me feito rir de verdade (n\u00e3o apenas um sorriso). Talvez isso diga algo sobre a dificuldade do humor na literatura, ou mais provavelmente, sobre as minhas escolhas liter\u00e1rias.<\/p>\n<h3 class=\"has-medium-font-size\"><strong>Livro que n\u00e3o consegui terminar:&nbsp;<\/strong><\/h3>\n<p><strong><em>No caminho de Swann<\/em> <\/strong>(primeiro volume de <em>Em busca do tempo perdido<\/em>), de Marcel Proust, \u00e9 um livro maravilhoso, mas a verdade \u00e9 que j\u00e1 retomei a leitura v\u00e1rias vezes e nunca consigo terminar. Acho que tem livros que precisam ser lidos no tempo certo, que \u00e9 sempre um tempo intuitivo. Acho que este \u00e9 um desses casos.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong><a href=\"https:\/\/leia.taglivros.com\/assine-clube-frete\/?utm_medium=social&amp;utm_source=blog&amp;utm_campaign=entrevista_carola_saavedra\">Quer receber em casa livros indicados por grandes nomes da cultura brasileira e internacional, em edi\u00e7\u00f5es exclusivas? Vem pra TAG!<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora Carola Saavedra j\u00e1 \u00e9 conhecida dos Taggers de longa data. Seu livro Com armas sonolentas foi enviado na TAG Curadoria em 2022, indicado por Carlos Eduardo Pereira. A obra logo se tornou um dos t\u00edtulos queridinhos do clube, com nota 4.3 no aplicativo. 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